Uma ave domesticada que sobe na mão, interage carinhosamente e participa da vida da família é uma experiência completamente diferente de uma ave que foge e morde. A boa notícia é que a maioria das aves de estimação pode ser domesticada com paciência e técnica correta.
A má notícia: não existe atalho. Domesticação leva tempo, consistência e respeito pelo ritmo da ave. Forçar o processo gera medo e desconfiança que podem durar anos.
Expectativas realistas
Algumas aves domesticam em dias. Outras levam meses. Algumas nunca vão ser super mansas, mas podem aceitar manejo básico. Fatores que influenciam:
Idade: Filhotes criados na mão geralmente já vêm domesticados. Aves jovens domesticam mais fácil que adultas.
Histórico: Ave que sofreu trauma ou negligência vai demorar mais. Ave que nunca foi manuseada está "zerada" mas não traumatizada, o que é melhor.
Espécie: Calopsitas geralmente são dóceis por natureza. Periquitos variam muito individualmente. Papagaios são inteligentes mas podem ser teimosos. Canários não são aves de manejo.
Personalidade individual: Assim como pessoas, cada ave tem temperamento próprio. Algumas são naturalmente mais confiantes, outras mais tímidas.
Antes de começar
Certifique-se de que a ave está saudável. Ave doente ou estressada não deve ser forçada a interagir. Dê pelo menos uma semana pra ela se adaptar ao novo ambiente antes de começar a domesticação ativa.
O ambiente deve ser seguro pra quando ela sair da gaiola: janelas fechadas (ou teladas), ventiladores desligados, espelhos cobertos ou sinalizados, sem outros animais que possam atacar.
O processo passo a passo
Nos primeiros dias, simplesmente passe tempo perto da gaiola. Converse em tom calmo e baixo. Faça suas atividades normais no mesmo ambiente. Ela vai observar e começar a entender que você não é ameaça.
Não tente pegar, não faça movimentos bruscos, não encare diretamente (olhar fixo é ameaça no mundo animal).
Ofereça petiscos favoritos (painço é quase universal) através das grades. Não force que ela pegue, apenas deixe disponível enquanto sua mão está ali.
Com o tempo, ela vai se aproximar pra pegar. Eventualmente vai comer com você segurando. Esse é um grande marco de confiança.
Quando ela estiver confortável com sua presença, comece a colocar a mão dentro da gaiola. Não tente pegá-la, apenas deixe a mão lá, imóvel, perto dela.
Ela pode fugir no começo. Tudo bem. Deixe a mão quieta. Eventualmente a curiosidade vence. Ofereça petisco na palma.
Sessões curtas (5-10 minutos) várias vezes ao dia são melhores que sessões longas e exaustivas.
Quando ela estiver confortável com sua mão na gaiola, pressione levemente o dedo contra o peito dela, logo acima das patas. O instinto natural é subir no "galho" (seu dedo).
Algumas aves entendem de primeira. Outras levam tentativas. Se ela morder ou fugir, não reaja bruscamente. Simplesmente retire a mão calmamente e tente de novo depois.
Quando subir, recompense com muito elogio e petisco.
Depois que ela subir na mão de forma consistente, você pode começar a tirá-la da gaiola. Ambientes pequenos são mais fáceis no começo (banheiro, por exemplo).
As primeiras vezes ela pode voar de medo. Não persiga. Deixe ela pousar, acalmar, e então ofereça a mão com petisco novamente.
Gradualmente ela vai entender que fora da gaiola também é seguro.
O que nunca fazer
- Perseguir a ave pelo ambiente
- Segurar à força quando ela está lutando pra escapar
- Gritar ou reagir bruscamente quando ela morde
- Usar luvas grossas (ela não vai aprender a confiar em mãos)
- Cobrir a gaiola como punição
- Bater ou qualquer punição física
- Deixar de alimentar pra "forçar" que ela venha até você
Lidando com mordidas
Aves mordem. Faz parte. Não leve pro pessoal. Mordidas acontecem por medo, defesa do território, superestimulação, ou simplesmente porque você não leu os sinais de que ela não queria ser tocada.
Quando ela morder:
Não grite nem sacuda a mão. Reação dramática pode ser interpretada como "brincadeira" e reforçar o comportamento, ou assustar e criar mais medo.
Diga "não" em tom firme e baixo e encerre a interação calmamente. Coloque ela de volta na gaiola ou num poleiro e se afaste.
Analise o que causou. Você foi muito rápido? Tocou em lugar que ela não gosta? Ela já estava mostrando sinais de estresse?
Minha calopsita mordeu muito nas primeiras semanas. Descobri que ela detesta ser tocada nas asas. Depois que respeitei isso, as mordidas praticamente pararam.
Treinando comandos
Depois que a ave está domesticada, você pode ensinar truques e comandos. Reforço positivo é o método:
Target training: Ensine ela a tocar um objeto (uma vareta colorida, por exemplo) com o bico. Recompense com petisco cada vez que tocar. Depois você pode usar o target pra guiá-la pra onde quiser.
"Sobe" e "desce": Comandos básicos. Use sempre a mesma palavra, no mesmo tom. Recompense quando obedecer.
Truques: Girar, acenar, buscar objetos pequenos. Calopsitas e papagaios aprendem bem. Periquitos também, mas são menores e mais rápidos, pode ser mais desafiador.
Ensinando a falar
Nem toda ave vai falar. Mas pra maximizar as chances:
Comece com palavras curtas e simples. "Oi", "bom dia", o nome dela.
Repita de forma clara, consistente, no mesmo tom. Olhando pra ela, quando ela estiver atenta.
Associe palavras a contextos: "oi" quando chegar, "tchau" quando sair, "gostoso" ao dar comida.
Seja paciente. Pode levar semanas ou meses até a primeira palavra. Depois que aprende uma, as próximas vêm mais fácil.
Calopsitas geralmente assobiam mais do que falam. Papagaios são os melhores faladores. Periquitos podem falar, mas a voz é mais difícil de entender.
Mantendo o vínculo
Domesticação não é um ponto de chegada, é relacionamento contínuo. Ave que fica semanas sem interação pode regredir. Reserve tempo diário pra interagir, mesmo que seja só conversar enquanto ela está na gaiola.
O vínculo com uma ave bem domesticada é especial. Ela vai reconhecer você entre outras pessoas, vir quando chamada, demonstrar afeto. Calopsitas abaixam a cabeça pedindo carinho. Periquitos regurgitam comida como presente de amor. Papagaios falam seu nome quando você chega.
Vale cada minuto de paciência no processo de domesticação.