Comida é uma das coisas que mais gera dúvida em quem tem cachorro. Qual ração comprar? Pode dar fruta? E osso? Quanto é demais? Quanto é pouco? Todo mundo tem uma opinião diferente, e a internet só complica mais.
Vou tentar simplificar. Não existe dieta perfeita universal, mas existem princípios que funcionam pra maioria dos cães.
Ração: a base da alimentação
Pra maioria dos tutores, ração comercial é a escolha mais prática. É balanceada, conveniente e quando você escolhe uma boa, supre todas as necessidades nutricionais do cão.
O mercado brasileiro divide as rações em categorias que, de forma geral, refletem a qualidade:
Econômica: A mais barata. Usa ingredientes de baixa qualidade, muito milho, subprodutos. O cão precisa comer mais pra obter os nutrientes necessários, e as fezes costumam ser mais volumosas. Não recomendo como alimentação principal.
Standard: Um passo acima. Ainda tem bastante cereal, mas a proteína é um pouco melhor. É o mínimo aceitável pra um cão saudável, mas não é ideal.
Premium: Boa relação custo-benefício. Proteína de qualidade razoável, menos enchimento. A maioria dos cães vai bem com ração premium.
Super Premium: Ingredientes de alta qualidade, proteína como primeiro ingrediente (e não cereal), menos conservantes artificiais. Custa mais, mas o cão come menos quantidade e aproveita mais.
Holística/Natural: O topo da pirâmide. Ingredientes "human grade" (qualidade humana), sem transgênicos, sem corantes. Preço alto, mas qualidade alta também.
Quantidade: quanto dar?
Toda embalagem tem uma tabela com a quantidade recomendada por peso. É um bom ponto de partida, mas não é regra absoluta. Cães ativos precisam de mais, cães sedentários precisam de menos. Castrados geralmente precisam de menos que inteiros.
O melhor indicador é o corpo do cão. Você deve conseguir sentir as costelas com leve pressão, mas não vê-las. Visto de cima, ele deve ter uma cintura visível. Se as costelas estão muito salientes, aumente a comida. Se você não consegue senti-las de jeito nenhum, diminua.
Quer uma estimativa mais precisa?
Use nossa calculadora de ração →Sobre frequência: filhotes comem mais vezes ao dia (3-4 vezes até 4 meses, depois 3 vezes, depois 2). Adultos vão bem com 2 refeições diárias. Alguns tutores dão só uma, mas duas ajuda a manter o metabolismo estável e evita que o cão fique com fome demais e devore tudo de uma vez.
Alimentos humanos: pode ou não pode?
Tem coisa que pode, tem coisa que não pode de jeito nenhum. O problema é que a linha entre "faz mal" e "pode em moderação" confunde muita gente.
Geralmente seguros
- Cenoura (crua ou cozida)
- Maçã (sem sementes)
- Banana (com moderação)
- Melancia (sem sementes)
- Brócolis e couve-flor
- Abóbora cozida
- Frango cozido (sem ossos)
- Carne magra cozida
- Arroz branco
- Batata doce cozida
Proibidos
- Chocolate (qualquer tipo)
- Uvas e passas
- Cebola e alho
- Abacate
- Xilitol (adoçante)
- Macadâmia
- Álcool
- Café e cafeína
- Ossos cozidos
- Massa de pão crua
Frutas em geral são ok como petisco ocasional, mas sem exagero porque têm açúcar. Sempre tire sementes de maçã e pera. Melão, manga (sem caroço) e morango são seguros. Evite frutas cítricas em excesso porque podem irritar o estômago.
Ossos é um tema polêmico. Ossos crus de boi são mais seguros que cozidos, porque não lascam tanto. Mas ainda assim há risco de quebrar dentes ou causar obstrução. Ossos de frango cozidos são extremamente perigosos porque lascam e podem perfurar o intestino. Se quiser dar ossos, supervisione sempre e prefira os recreativos grandes de boi cru.
Alimentação natural: vale a pena?
Alimentação natural (AN) ou BARF (comida crua) tem ganhado adeptos. A ideia é preparar a comida do cão em casa, com ingredientes frescos e sem processamento industrial.
Vantagens potenciais: você sabe exatamente o que está oferecendo, pode adaptar pra cães com alergias ou problemas específicos, muitos tutores relatam melhora no pelo e nas fezes.
Desvantagens: dá trabalho, precisa de conhecimento pra balancear corretamente, sai mais caro que ração na maioria dos casos, e se não for bem feita pode causar deficiências nutricionais.
Se você quer tentar, não simplesmente comece a dar comida de casa pro cachorro. Procure um veterinário nutrólogo pra montar uma dieta adequada. Cães têm necessidades diferentes de humanos e uma alimentação que parece saudável pra gente pode não ser completa pra eles.
Petiscos
Petiscos são ótimos pra treino e pra agradar, mas não devem representar mais que 10% das calorias diárias. É fácil exagerar porque parecem pequenos, mas vão somando.
Petiscos industriais variam muito em qualidade. Leia o rótulo assim como você lê o da ração. Evite os que têm corantes artificiais brilhantes.
Petiscos naturais que funcionam bem: pedaços de cenoura, cubos de maçã, pedacinhos de frango cozido, banana congelada. Mais saudáveis e mais baratos que os industrializados.
Água
Parece óbvio, mas vale mencionar: água limpa e fresca sempre disponível. Troque pelo menos uma vez por dia. Lave o potinho regularmente porque cria limo no fundo.
A quantidade de água que o cão bebe varia. Dias quentes, mais. Depois de exercício, mais. Se ele come só ração seca, mais (porque a ração tem pouca umidade). Alimentação natural ou ração úmida reduz a necessidade porque já tem água na comida.
Beber água demais pode ser sinal de problema (diabetes, doença renal). Se você notar que ele está bebendo muito mais que o normal sem razão aparente, vale uma consulta.
Problemas relacionados à alimentação
Cão que não quer comer
Pode ser apenas enjoo passageiro, estresse, ou sinal de algo mais sério. Se ele pular uma refeição mas continuar ativo e bem disposto, não se preocupe. Se recusar comida por mais de 24 horas, especialmente se estiver apático, procure veterinário.
Alguns cães são "exigentes" porque aprenderam que se recusarem a ração, vão ganhar algo melhor. Se esse for o caso, a solução é oferecer a ração, esperar 15-20 minutos, retirar se ele não comer, e oferecer de novo só na próxima refeição. Sem drama, sem negociação. Cachorro saudável não morre de fome tendo comida disponível.
Cão que come rápido demais
Engolir ração sem mastigar pode causar engasgo, vômito, e em raças grandes com peito profundo, aumenta o risco de torção gástrica. Comedouros lentos (aqueles com obstáculos internos) ajudam a desacelerar. Dividir a refeição em porções menores também funciona.
Alergias alimentares
Coceira persistente, orelhas inflamadas, lambedura excessiva das patas, problemas digestivos crônicos... pode ser alergia alimentar. Os alérgenos mais comuns são frango, boi, trigo e soja.
Diagnosticar alergia alimentar é trabalhoso. Envolve dieta de eliminação: semanas comendo só uma proteína e um carboidrato que o cão nunca comeu antes (tipo pato e batata doce), depois reintroduzindo ingredientes um a um pra ver qual causa reação. Exige paciência e disciplina.
Resumindo
Ração de boa qualidade é a base. Complemente com petiscos saudáveis com moderação. Evite os alimentos proibidos. Ajuste a quantidade pelo corpo do cão, não só pela tabela. E quando tiver dúvida, veterinário é sempre a melhor fonte de orientação específica pro seu cão.