Todo cachorro faz algo que incomoda. Alguns latem demais, outros destroem coisas, outros puxam a guia como se estivessem rebocando um caminhão. A questão é: quando é comportamento normal que precisa de ajuste e quando é problema sério?
A maioria dos problemas comportamentais tem causa identificável. Tédio, falta de exercício, ansiedade, falta de treino, ou simplesmente o cão nunca aprendeu o que era esperado dele. Resolver começa por entender a causa.
Latidos excessivos
A solução depende da causa. Se é alerta, ensine um "chega" ou "quieto" e recompense quando ele parar. Se é tédio, o problema é mais de exercício e enriquecimento do que de treino. Se é ansiedade, precisa trabalhar a causa da ansiedade.
Uma técnica que funciona pra latido de atenção: ignore completamente. Zero olhar, zero falar, zero interação. Vire de costas se precisar. No momento que ele parar e ficar quieto por alguns segundos, aí sim você dá atenção. Vai piorar antes de melhorar porque ele vai insistir mais no começo, mas se você for consistente, ele aprende que latir não funciona.
Destruição
Sofá destruído, porta roída, sapatos estripados. Frustrante e caro. Mas por que ele faz isso?
Filhotes destroem porque estão com os dentes nascendo e precisam morder. Não é maldade, é necessidade física. Forneça alternativas adequadas.
Cães adultos destroem por tédio ou ansiedade. Se a destruição acontece quando você não está, é bem provável que seja ansiedade de separação. Se acontece mesmo com você em casa, provavelmente é falta de estímulo.
Exercício físico é a primeira linha de defesa. Cachorro cansado não tem energia pra destruir. Mas exercício mental também é importante: brinquedos que dispensam comida, jogos de farejar, treino de comandos.
Não adianta brigar quando você chega em casa e encontra a destruição. O cão não associa a bronca com o que fez horas atrás. Ele só sabe que você chegou e está bravo. A cara de "culpado" que ele faz? É medo da sua reação, não consciência de ter errado.
Ansiedade de separação
Esse é um problema sério que muita gente subestima. O cão entra em pânico real quando fica sozinho. Sintomas incluem destruição (especialmente perto de portas e janelas), latidos e uivos contínuos, fazer necessidades dentro de casa mesmo sendo treinado, babar excessivamente, tentar escapar.
Tratamento envolve dessensibilização gradual: ensinar que você sair não é o fim do mundo. Começa com partidas curtíssimas (sair e voltar em 30 segundos) e vai aumentando muito devagar. Nada de despedidas dramáticas nem chegadas efusivas, pra não criar associação emocional intensa com sua saída/chegada.
Em casos severos, medicação pode ser necessária enquanto o trabalho comportamental acontece. Não é vergonha e não é "dopar" o cachorro. É permitir que ele fique calmo o suficiente pra aprender.
Puxar a guia
Um dos problemas mais comuns e mais chatos do dia a dia. O passeio vira uma luta de cabo de guerra em vez de um momento agradável.
Dá trabalho e no começo você vai andar muito devagar. Mas se for consistente, ele aprende que guia frouxa = gente andando, guia esticada = gente parada.
Equipamentos como guia de passeio curta e peitorais anti-puxão ajudam, mas não resolvem sozinhos. São ferramentas de apoio enquanto você treina, não substituem o treinamento.
Pular nas pessoas
Cachorro pula porque quer atenção e porque funcionou: ele pula, a pessoa interage (mesmo que seja pra empurrar ou brigar, ainda é atenção). Filhote pulando é até fofo. Cão de 30kg pulando na sua avó não é.
A solução é ignorar o pulo e recompensar o "quatro patas no chão". Quando ele pular, vire de costas e não fale nada. Quando ele descer e ficar parado, aí sim você dá atenção. Com consistência, ele aprende que pular não gera o que ele quer, mas ficar de pé sim.
O difícil é fazer todo mundo seguir a regra. Não adianta você treinar se sua tia acha fofo e deixa pular quando visita. Avise as pessoas: "estou treinando ele a não pular, por favor ignore quando ele fizer isso".
Mordidas (brincadeira e não)
Mordida de brincadeira
Filhotes mordem. Faz parte de como eles exploram o mundo. Mas precisam aprender que pele humana é sensível e morder dói.
Quando ele morder forte, diga "ai!" num tom agudo e retire a mão. Pare a brincadeira por alguns segundos. Isso simula o que os irmãos fariam: quando um morde forte demais, o outro grita e para de brincar. Ele aprende a controlar a força da mordida.
Redirecione pra brinquedos. Morder brinquedo está ok, morder mão não está. Sempre tenha um brinquedo por perto durante brincadeiras.
Mordida de agressividade
Proteção de recursos (resource guarding)
O cão rosna, mostra os dentes ou tenta morder quando alguém se aproxima da comida, de um brinquedo, do lugar onde está deitado. Ele está protegendo algo que considera valioso.
É um comportamento que faz sentido evolutivamente, mas é perigoso num ambiente doméstico, especialmente com crianças.
A abordagem é fazer a presença de pessoas perto do recurso ser algo bom, não ameaça. Em casos leves: quando ele estiver comendo, passe perto e jogue um petisco ainda melhor na direção dele. Repetindo isso muitas vezes, ele começa a associar você se aproximando com coisa boa acontecendo, não com perda do recurso.
Em casos moderados a graves, não arrisque. Profissional.
Medo de barulhos
Trovões, fogos de artifício, obras. Alguns cães tremem, babam, tentam se esconder ou fugir. É sofrimento real e pode ser perigoso se ele tentar escapar.
Durante o episódio: fique calmo, não faça drama. Deixe ele se esconder se quiser (debaixo da cama, no banheiro fechado). Não force interação. Não tente "mostrar que não é nada" levando ele pra perto do barulho.
Entre episódios: dessensibilização. Existem áudios de trovões e fogos que você pode tocar em volume baixíssimo, tão baixo que ele nem reage. Gradualmente aumenta ao longo de semanas/meses enquanto faz coisas legais acontecerem. É um processo lento.
Em casos severos, veterinário pode prescrever medicação pra usar em datas previsíveis (Ano Novo, por exemplo). Também existem camisetas de compressão (Thundershirt) que ajudam alguns cães.
O padrão por trás dos problemas
Se você reparar, a maioria dos problemas tem algumas coisas em comum:
Falta de exercício físico e mental. Cachorro é bicho que foi feito pra fazer coisas. Preso em apartamento sem estímulo, ele inventa o que fazer, e geralmente não é o que você quer.
Falta de consistência. Regras que às vezes valem e às vezes não confundem o cão. Todo mundo da casa precisa estar na mesma página.
Reforço acidental do comportamento errado. Você dá atenção quando ele faz errado (mesmo que seja pra brigar) e ignora quando ele está de boa. Ele aprende que fazer errado gera interação.
Falta de entender a perspectiva do cão. Ele não faz as coisas "pra te irritar" ou "porque sabe que é errado". Ele faz porque, do ponto de vista dele, faz sentido ou atende uma necessidade.
Se você cobrir o básico, exercício adequado, rotina previsível, regras claras e consistentes, a maioria dos problemas nem chega a se desenvolver. E quando aparecem, ficam mais fáceis de resolver.