Então você decidiu ter um gato. Parabéns. Você está prestes a entrar num relacionamento onde vai ser completamente ignorado na maior parte do tempo, acordado às 5 da manhã porque o pote de comida está meio vazio, e ainda assim amar cada segundo.
Gatos são diferentes de cachorros. Parece óbvio, mas muita gente entra esperando um comportamento canino e fica frustrada. Se você quer um animal que vem quando chamado, demonstra afeto constantemente e vive pra te agradar, talvez um cachorro seja melhor opção.
Agora, se você curte a ideia de um companheiro independente, cheio de personalidade, que vai te dar carinho quando ele quiser (e aí é o melhor carinho do mundo), continue lendo.
Gato não é cachorro pequeno
Cachorro foi domesticado pra viver em matilha e serve humanos há milhares de anos. Gato foi "semi-domesticado" porque era útil caçar ratos, mas nunca precisou da gente da mesma forma. Isso explica a independência. Não é frieza, é natureza.
O que você precisa ter em casa
Antes de trazer o gato, prepare o ambiente. Não precisa de muito, mas algumas coisas são essenciais:
- Caixa de areia (uma por gato, mais uma extra é o ideal)
- Areia higiênica
- Potes de comida e água (separados)
- Ração de qualidade
- Arranhador (vai salvar seus móveis)
- Caixa de transporte
Sobre a caixa de areia: localização importa. Coloque num lugar tranquilo, com privacidade, longe da comida. Gatos são exigentes com banheiro. Se a caixa estiver suja, mal localizada ou em lugar barulhento, eles vão achar outro lugar. Tipo seu tapete.
Arranhador não é luxo. Gatos precisam arranhar, é instinto. Eles marcam território, alongam os músculos, mantêm as unhas. Se você não oferecer arranhador, o sofá vira opção. Teste diferentes tipos (vertical, horizontal, de sisal, de papelão) pra ver o que seu gato prefere.
Os primeiros dias
Gato novo em casa significa gato estressado. Tudo é diferente: cheiros, sons, pessoas. Muitos gatos se escondem nos primeiros dias, e isso é completamente normal.
Não force interação. Deixe ele explorar no ritmo dele. Prepare um cômodo pequeno (como um banheiro ou quarto) com tudo que ele precisa, e deixe ele se acostumar ali primeiro antes de liberar a casa toda. Pode parecer cruel confinar, mas na verdade é menos estressante pra ele do que ter que processar uma casa enorme de uma vez.
Meu primeiro gato passou três dias embaixo da cama. Eu achei que tinha feito algo errado. No quarto dia ele saiu, subiu no meu colo, e nunca mais foi embora de lá.
Ofereça comida e água, mostre onde fica a caixa de areia (coloque ele lá algumas vezes pra ele saber), e deixe acontecer. Fale baixo, movimente-se devagar. A curiosidade felina eventualmente vence o medo.
Alimentação
Gatos são carnívoros obrigatórios. Isso significa que precisam de proteína animal pra sobreviver, diferente de cães que são mais onívoros. Dieta vegetariana ou vegana não funciona pra gatos e pode causar problemas sérios de saúde.
Ração seca ou úmida? Ambas funcionam. Ração úmida tem mais água (bom porque muitos gatos não bebem o suficiente) e geralmente mais proteína. Ração seca é mais prática e melhor pro bolso. Muitos tutores combinam as duas.
Quantidade: siga as recomendações da embalagem e ajuste conforme o peso do gato. Obesidade em gatos é problema sério. Aquele gato gordinho que parece fofo está na verdade em risco de diabetes, problemas articulares e hepáticos.
Caixa de areia: a arte de limpar cocô
Vai ocupar uma parte da sua vida daqui pra frente. Aceite.
Limpe os dejetos pelo menos uma vez por dia. Gato é bicho limpo e não gosta de caixa suja. Se a caixa está muito cheia, ele pode começar a fazer as necessidades em outros lugares como forma de protesto.
Troca completa da areia: depende do tipo. Areias aglomerantes podem ser renovadas parcialmente conforme você remove os torrões. Troca total a cada 2-4 semanas, lavando a caixa com água e sabão neutro (evite produtos com cheiro forte).
Se o gato parar de usar a caixa de repente, pode ser: caixa suja demais, mudança de marca de areia que ele não gostou, problema de saúde (infecção urinária faz eles associarem a caixa com dor), ou estresse por alguma mudança no ambiente.
Arranhadores e móveis
Gatos arrancham. Não vai parar. Não é pra te irritar, é necessidade física e comportamental. Sua missão é oferecer opções melhores que seu sofá.
Observe onde ele tenta arranhar. Se é em superfícies verticais, ofereça poste alto. Se é no tapete, talvez prefira arranhador horizontal. Alguns gatos gostam de sisal, outros de papelão. Experiemente.
Coloque arranhadores perto dos lugares que ele já tenta arranhar. Se ele ama o canto do sofá, coloque um arranhador ali do lado. Use catnip (erva de gato) pra atrair ele pro arranhador.
Enriquecimento ambiental
Gatos precisam de estímulo, especialmente se vivem só dentro de casa. Não ter acesso à rua é mais seguro (evita atropelamentos, brigas, doenças), mas significa que você precisa compensar a falta de exploração e caça.
Prateleiras e lugares altos pra escalar. Gatos adoram altura, faz eles se sentirem seguros. Pode ser prateleira na parede, árvore de gato, ou simplesmente acesso a cima de armários.
Brinquedos que simulem caça. Varinhas com penas, bolinhas que rolam, brinquedos com catnip. Reserve 15-20 minutos por dia pra brincar ativamente com seu gato. Isso mantém ele fisicamente ativo e mentalmente estimulado.
Esconderijos. Caixas de papelão, tocas, cobertores em lugares fechados. Gatos se sentem seguros em espaços pequenos e escondidos.
Veterinário e vacinas
Na primeira semana, leve ao veterinário pra check-up. Mesmo que o gato pareça saudável, é importante estabelecer uma referência.
Vacinas básicas pra gatos: tríplice ou quádrupla felina (protege contra panleucopenia, rinotraqueíte e calicivirose) e antirrábica. O protocolo inicial são duas ou três doses com intervalo de 21-30 dias, depois reforço anual.
Vermifugação geralmente começa cedo e se repete periodicamente. Antipulgas também, conforme orientação do veterinário.
Castração é altamente recomendada. Gatos não castrados fazem xixi pra marcar território (fede muito), tentam fugir pra acasalar, brigam mais, e contribuem pra superpopulação. Gatas não castradas têm cios frequentes que são estressantes pra elas e pra você. A cirurgia é segura e rotineira.
Comportamentos que parecem estranhos mas são normais
Amassar pãozinho: aquele movimento de pressionar as patas alternadamente. Vem da infância, quando faziam isso pra estimular o leite da mãe. Significa que estão confortáveis e felizes.
Trazer "presentes" (insetos, lagartixas, às vezes bichos mortos): instinto de caça. Eles estão compartilhando a presa com você. Agradeça e descarte discretamente.
Loucura noturna: corridas aleatórias pela casa às 3 da manhã. Gatos são crepusculares (mais ativos ao amanhecer e entardecer). Sessões de brincadeira antes de dormir podem ajudar a gastar energia.
Derrubar coisas das mesas: é diversão e investigação. Se não quer que caiam, não deixe ao alcance. Ou aceite que seu gato está fazendo experimentos de física.
Ficar olhando pro nada: provavelmente estão vendo ou ouvindo algo que você não percebe. Audição e visão felinas são muito mais apuradas que as nossas.
O relacionamento vai evoluir
No começo talvez você sinta que o gato não liga pra você. Dê tempo. A confiança felina é conquistada, não dada de graça. Quando você perceber que ele escolheu dormir do seu lado, que vem te receber na porta, que ronrona no seu colo, vai entender o que torna gatos tão especiais.
Não é sobre ter um animal que obedece. É sobre ter um companheiro que te escolheu. E quando um gato escolhe você, é uma das melhores sensações do mundo.
Bem-vindo ao time dos loucos por gatos.