Um gato é ótimo. Dois podem ser melhores ainda, se eles se derem bem. O problema é que gatos não são animais naturalmente sociais da mesma forma que cachorros. Na natureza, vivem sozinhos ou em grupos familiares por escolha, não por necessidade. Forçar convivência com um gato estranho pode dar certo ou pode ser desastroso.
Se você está pensando em adicionar um segundo (ou terceiro, ou quarto) gato, ou já tem vários e precisa melhorar a convivência, esse guia vai ajudar.
Antes de adotar outro gato
Perguntas honestas pra fazer a si mesmo:
Seu gato atual parece querer companhia? Alguns gatos adoram outros gatos. Outros toleram. Outros absolutamente detestam. Se seu gato é territorial, reage mal a gatos que vê pela janela, ou nunca conviveu com outros felinos, a adaptação vai ser mais difícil.
Você tem espaço? Não só metros quadrados, mas recursos multiplicáveis: caixas de areia, pontos de alimentação, esconderijos, lugares altos. Gatos precisam poder evitar uns aos outros quando quiserem.
Você tem tempo e paciência? Introdução bem feita leva semanas, às vezes meses. Você está disposto a investir esse tempo?
E se não der certo? Qual é o plano B? Devolver o gato novo não é ideal. Manter gatos que se odeiam separados pra sempre também não.
Escolhendo o novo gato
Compatibilidade não é garantida, mas algumas combinações têm mais chance de sucesso:
Filhotes geralmente são mais aceitos por adultos. Menos ameaçadores, mais flexíveis. Mas um filhote hiperativo pode estressar um gato adulto calmo.
Gatos de energia similar se dão melhor. Um jovem brincalhão com um idoso que só quer paz é receita pra frustração dos dois lados.
O sexo importa menos que a personalidade, especialmente se todos forem castrados. Mas alguns estudos sugerem que combinações fêmea-fêmea têm mais conflito, talvez porque fêmeas são mais territoriais.
Se possível, escolha um gato que já demonstrou conviver bem com outros. Abrigos e protetores podem informar isso.
A introdução: passo a passo
A tentação é colocar os dois juntos e "deixar se resolverem". Não faça isso. Primeiras impressões importam, e uma introdução ruim pode criar animosidade que dura anos.
O gato novo fica em um cômodo separado com tudo que precisa: comida, água, caixa de areia, arranhador, esconderijo. Porta fechada. Os gatos não se veem.
Duração: pelo menos 3-7 dias, mais se necessário.
Objetivo: o novo gato se acostuma com o ambiente. O residente percebe que tem outro gato, mas não sente seu território invadido.
Troque itens entre os gatos: cobertores, brinquedos, arranhadores. Deixe cada um sentir o cheiro do outro em seu próprio espaço.
Esfregue um pano na bochecha de um gato e deixe pro outro cheirar. As glândulas faciais produzem feromônios "amigáveis".
Observe reações: curiosidade é bom, agressividade ao cheiro já indica problemas.
Coloque os potes de comida de cada gato em lados opostos da porta fechada. Eles comem sabendo que o outro está ali.
Comece com distância da porta que não cause estresse. Aproxime gradualmente ao longo dos dias.
Objetivo: associar a presença do outro com algo positivo (comida).
Substitua a porta por barreira que permita ver mas não passar: portão de bebê, porta entreaberta com trava, tela.
Sessões curtas inicialmente. Ofereça petiscos ou brincadeira durante o contato visual pra manter positivo.
Se houver rosnar, bufar ou agitação, aumente a distância ou volte pra fase anterior.
Deixe os dois no mesmo espaço, mas supervisionado. Mantenha sessões curtas. Tenha cobertor grosso ou spray de água prontos pra separar se necessário (mas só em emergência, não como punição).
Aumente gradualmente a duração conforme as coisas fluírem bem.
Rosnar e bufar ocasionais são normais no começo. Perseguição agressiva ou brigas não são.
Quando os encontros supervisionados forem tranquilos consistentemente, você pode começar a deixar juntos quando não está olhando. Monitore por mais algumas semanas.
Recursos: a regra de ouro
A fórmula básica: número de gatos + 1 pra recursos essenciais.
2 gatos = 3 caixas
Em locais diferentes
Separados pra evitar competição
Pode ser mesmo cômodo, distância suficiente
Múltiplos pela casa
Longe da comida
Vários, pra cada um ter opção
Prateleiras, árvores de gato
Cada gato precisa de refúgio
Onde possa ficar sozinho
Múltiplos pela casa
Evita disputa territorial
Gatos que precisam competir por recursos ficam estressados, mesmo que a competição seja sutil e você não perceba.
Sinais de boa convivência
Isso é bom:
Dormir perto ou juntos. Se lambem mutuamente (allogrooming). Brincam sem agressividade. Passam um pelo outro sem tensão. Compartilham espaço sem problemas. Rabos pra cima quando se encontram.
Sinais de problema
Sinais mais sutis que muita gente não percebe:
Um gato que fica sempre escondido, evitando áreas comuns. Um que para de usar a caixa de areia em determinado local. "Olhares" fixos e intimidadores. Um gato bloqueando passagens enquanto o outro desvia. Tensão corporal (pelos, orelhas) quando estão no mesmo ambiente.
Gatos podem estar em conflito sem nunca brigar fisicamente. A tensão silenciosa ainda é estresse.
Se a convivência não está boa
Primeiro, garanta que recursos são suficientes e bem distribuídos. Muitos "conflitos de personalidade" são na verdade conflitos de recurso.
Difusores de feromônio sintético (tipo Feliway) podem ajudar a reduzir tensão geral.
Se identificou tensão séria ou brigas, considere recomeçar a introdução do zero. Separe completamente e refaça as fases gradualmente.
Consulte veterinário comportamentalista se as coisas não melhorarem. Às vezes medicação temporária ajuda a quebrar o ciclo de estresse.
Em casos extremos, gatos podem ser incompatíveis. Opções: manter permanentemente separados em áreas diferentes da casa, ou realocar um deles pra um lar onde será gato único. Não é fracasso, é reconhecer que nem toda combinação funciona.
Quantos gatos são demais?
Depende do espaço, dos gatos e de você. Não existe número mágico. Mas sinais de que você passou do limite incluem:
- Problemas de comportamento aparecendo (xixi fora da caixa é clássico)
- Dificuldade de manter higiene e recursos pra todos
- Gatos visivelmente estressados
- Você não consegue dar atenção individual suficiente
- Custos veterinários ficando insustentáveis
Regra prática que ouvi de uma veterinária: "O número máximo de gatos é aquele em que você ainda consegue perceber imediatamente se um deles está comendo menos ou agindo diferente."
Os benefícios quando funciona
Gatos que se dão bem brincam juntos (ótimo pra gasto de energia), se lambem (alcançam lugares que sozinhos não alcançariam), fazem companhia um pro outro quando você não está. Ver dois gatos dormindo abraçados é uma das coisas mais fofas do mundo.
Vale o esforço de fazer direito. Só não subestime esse esforço.