Calendário de Vacinação para Cães

Atualizado em dezembro de 2024 · Leitura: 8 min

Vacinas salvam vidas. Isso não é exagero nem papo de veterinário querendo vender serviço. Doenças como cinomose e parvovirose matam milhares de cães todo ano no Brasil, a maioria deles não vacinados ou com vacinação incompleta.

O protocolo de vacinação pode parecer confuso no começo: V8, V10, antirrábica, reforços... Vou tentar explicar de forma clara o que cada vacina faz e quando deve ser aplicada.

O esquema básico pra filhotes

O protocolo padrão pra filhotes no Brasil envolve três doses da vacina múltipla (V8 ou V10) mais a antirrábica. O intervalo entre as doses da múltipla é de 21 a 30 dias. A antirrábica geralmente é dada junto com a última dose ou um pouco depois.

Idade Vacina Observação
6-8 semanas V8 ou V10 (1ª dose) Primeira dose do protocolo
9-11 semanas V8 ou V10 (2ª dose) 21-30 dias após a primeira
12-14 semanas V8 ou V10 (3ª dose) 21-30 dias após a segunda
A partir de 12 semanas Antirrábica Dose única

Por que três doses? Porque filhotes recebem anticorpos da mãe pelo leite, e esses anticorpos maternos podem "neutralizar" a vacina. O problema é que não sabemos exatamente quando esses anticorpos desaparecem, então damos várias doses pra garantir que pelo menos uma "pegue" quando o filhote estiver receptivo.

V8 ou V10: qual a diferença?

As duas protegem contra as principais doenças caninas. A diferença está na quantidade de tipos de leptospirose incluídos.

A V8 protege contra: cinomose, parvovirose, coronavirose, hepatite infecciosa, adenovirose, parainfluenza e 2 tipos de leptospirose.

A V10 inclui tudo isso mais outros 2 tipos de leptospirose, totalizando 4 tipos.

Na prática, a maioria dos veterinários no Brasil usa V10 como padrão. O custo é um pouco maior, mas a proteção é mais ampla. Não vale a pena economizar aqui.

E a V11? Vi alguns lugares oferecendo.
A V11 adiciona proteção contra a Bordetella bronchiseptica (uma das causas da tosse dos canis). Pode ser interessante pra cães que frequentam creches, hotéis ou lugares com muitos outros cães. Pra maioria dos cães domésticos, V10 é suficiente.

Antirrábica: obrigatória por lei

A raiva é fatal em praticamente 100% dos casos, tanto pra animais quanto pra humanos. Por isso a vacina é obrigatória em todo o Brasil. Muitos municípios fazem campanhas anuais gratuitas.

O protocolo é simples: uma dose a partir dos 3 meses de idade, com reforço anual. Alguns veterinários e fabricantes já trabalham com vacinas que duram 3 anos, mas a legislação brasileira ainda exige comprovação anual em muitos lugares.

Importante: Sem a carteira de vacinação com antirrábica em dia, você não consegue viajar de avião com seu cão, hospedá-lo em hotéis pet ou participar de eventos. Além disso, em caso de mordida, a situação legal complica muito se o cão não estiver vacinado.

Outras vacinas: preciso ou não?

Além das vacinas básicas, existem outras que podem ser recomendadas dependendo do estilo de vida do seu cão.

Giárdia

Protege contra a giardíase, uma infecção intestinal causada por protozoário. A vacina não impede completamente a infecção, mas reduz a gravidade e a eliminação do parasita nas fezes.

Recomendada pra cães que frequentam áreas com muitos outros cães ou que têm acesso a água de procedência duvidosa. É dada em duas doses com intervalo de 21-30 dias.

Tosse dos Canis (Bordetella + Parainfluenza intranasal)

A "gripe canina" é altamente contagiosa em ambientes com muitos cães. Se o seu frequenta creches, hotéis ou exposições, essa vacina faz sentido. É aplicada no focinho (intranasal) e tem efeito mais rápido que vacinas injetáveis.

Leishmaniose

A leishmaniose visceral é grave e endêmica em várias regiões do Brasil. A vacina não é 100% eficaz e precisa ser associada a outras medidas de prevenção como coleiras repelentes.

Se você mora em área endêmica ou viaja frequentemente pra essas regiões, converse com o veterinário sobre essa vacina. Só pode ser aplicada em cães que testaram negativo pra doença.

Reações vacinais: quando se preocupar?

A maioria dos cães não tem nenhuma reação. Alguns podem ficar um pouco mais quietos nas primeiras 24 horas, ou ter sensibilidade no local da aplicação. Isso é normal e passa.

Reações que exigem atenção veterinária:

Reações alérgicas graves (anafilaxia) são raras, mas podem acontecer. Geralmente ocorrem nos primeiros 30 minutos após a aplicação. Por isso muitos veterinários pedem pra você esperar um pouco na clínica depois de vacinar.

Meu cachorro ficou mancando depois da vacina, é normal?
Pode acontecer se a vacina foi aplicada na pata. A região fica sensível por um ou dois dias. Se persistir além disso ou se houver muito inchaço, procure o veterinário.

Reforços anuais: são necessários?

Existe debate sobre isso no mundo todo. Alguns estudos sugerem que certas vacinas conferem imunidade por mais tempo que um ano. Nos Estados Unidos e Europa, já é comum usar protocolos com intervalos de 3 anos pra algumas vacinas.

No Brasil, a maioria dos veterinários ainda recomenda reforço anual da múltipla (V10) e da antirrábica. Parte disso é cultural, parte é porque as condições sanitárias aqui são diferentes.

O que você pode fazer é conversar com seu veterinário sobre a realidade do seu cão. Um cão que fica só em casa, tem contato mínimo com outros animais e mora em área urbana com boa infraestrutura pode ter um protocolo diferente de um que frequenta praças cheias de cães todos os dias.

Onde vacinar?

O ideal é sempre em clínica veterinária, onde as vacinas são armazenadas corretamente e aplicadas por profissional qualificado. A cadeia de frio é crucial: vacinas que ficaram fora da temperatura adequada perdem eficácia.

Campanhas públicas de vacinação antirrábica são confiáveis e gratuitas. Fique de olho nos anúncios da prefeitura da sua cidade.

Evite comprar vacinas em pet shops pra aplicar em casa. Mesmo que você saiba aplicar, o armazenamento inadequado pode comprometer a vacina. E sem a aplicação por profissional, você não tem a carteira de vacinação carimbada, que é exigida em diversas situações.

Cuidado com vacinas muito baratas. Vacinas de qualidade têm custo. Se o preço parecer bom demais, desconfie. Pode ser produto próximo do vencimento, mal armazenado, ou de procedência duvidosa.

Mitos sobre vacinação

"Cachorro que não sai de casa não precisa de vacina." Precisa sim. Você sai de casa. Você pode trazer vírus na sola do sapato. Visitas podem trazer. E o cachorro eventualmente vai ao veterinário ou pet shop.

"Meu cachorro tomou vacina e ficou doente, então vacina não funciona." Vacinas não são 100%. E às vezes o cão já estava incubando a doença antes de vacinar. Mas a proteção que as vacinas oferecem é estatisticamente comprovada.

"Cachorro vira-lata é mais resistente e não precisa de tantas vacinas." A resistência do SRD tem mais a ver com diversidade genética e seleção natural. Não significa imunidade a vírus. Vira-lata precisa das mesmas vacinas que cão de raça.

Resumo do protocolo

Pra não complicar: V10 em três doses pra filhotes, antirrábica a partir dos 3 meses, reforço anual de ambas. Outras vacinas conforme orientação do veterinário baseada no estilo de vida do seu cão.

Mantenha a carteira de vacinação em dia e em lugar seguro. Você vai precisar dela mais vezes do que imagina.